Totem
Uma peça de acrílico brilhante, era isso, uma peça que não combinava com absolutamente nada. A multidão ia e vinha pelo corredor, a ala da esquerda tinha acabado de deixar o barco e os que iam pela direita seguiam para ele. Três asiáticos conversavam e uma das garotas tinha o chaveiro que balançava, era um escultura em acrílico que seguia com a bolsa até o navio. O chaveiro tinha acabado de passar em frente à cafeteria, uma que ficava na entrada da zona de embarque. Andreas, que trabalhava na cafeteria, estava lá mais uma vez, em seu horário das duas as seis, e viu, talvez pela milésima, aquela garota asiática andando no meio da multidão de pessoas brancas e amáveis (ele olhava como se ama-se cada uma delas), a garota ia com seu chaveiro, podiam ser formas de um corpo de mulher, uma mulher sem cabeça, apenas os ombros, os seios, o abdômen, o quadril, a genitália e as coxas, podia ser uma peça de acrílico moldada nestas formas, era um grande interesse, e porque, de onde vinha esse interesse. Andreas sempre dizia que era interessado em mulheres maduras, ele gostava das de 40, dizia isso sempre, mas soava como uma piada, como uma brincadeira, ele fazia cara de serio e jurava que já tinha transado com uma de cinquenta, ou talvez tivesse sido apenas uma chupeta dentro de um desses cinemas pornôs. O que era o chaveiro, o que eram aquelas cores. Ele sabia de onde eram e queria algo interessante para aquela dia, ou para aquela noite. Muito mais do que ficar passando café fresco por dez dólares a hora, muito mais do que ficar ali em pé, as vezes muito mais do que oito horas, olhando todos entrando e saindo, vendo os viajantes indo e vindo, cruzando o oceano, todos pareciam tão absortos, não se olhavam, quase nada diziam, apenas caminhavam, uns pareciam tão assustados, outros não estavam nem ai. O grego via muitas pessoas, muitos estrangeiros, a maioria deles não falava, não sabiam falar, mas andavam, compravam, validavam seus passes para o barco que cruzava o mar até a cidade do outro lado, eles sabiam de quase tudo, mas o grego e sua memória fraca, Andreas não prestava atenção, ele esquecia tudo na manhã seguinte, era quase uma espécie de amnésia, porém o chaveiro pendurado na bolsa daquela mesma asiática e suas saias curtas, seria ela de Taiwan, do Japão ou Hong Kong? Quem sabe? (Será que falava cantonês), o chaveiro era um imã, todas as tardes, no mesmo horário ele parava de passar o café, ou de ferver a água para o chá, ou de recolher as cookies do forno, ele parava e encostava no balcão, olhava para a porta e esperava os três amarelos passarem e então focava no chaveiro até ele desaparecer no corredor, o corredor envidraçado, com vista para as montanhas que, apesar de ainda ser outono, já estavam com os picos cobertos de neve. Ele ouvia a mesma rádio todo dia, era a mesma playlist, eram quase as mesmas pessoas mas para ele, por um bom tempo, nada de importante tinha sentido, era apenas um jogo do acaso ficar ali esperando para ver qual roupa a chinesinha estaria vestindo, se combinaria com a bolsa, que cor seria a lente de contato daquele dia, a cor do olhos da asiática mudava de acordo com a roupa, era impressionante como aquilo deveria machucar os olhos dela, estavam sempre vermelhos, tudo parecia combinar, tudo parecia estar alinhado naquela garota, talvez até os dois amigos fossem assim, escolhidos de acordo com a cor do humor dela, mas o chaveiro, ele era singular, era completamente avesso ao resto da roupa, era um acessório que soava desafinado, que estava fora do contexto, ele balançava e Andreas (ou seria Dimitri), ele parava todas as tardes para olhar o brinquedo balançando. Ele que nunca tinha atravessado o mar naquele barco, ele que apenas servia o café para os viajantes, ele que nunca tinha visto a cor do pé da montanha nevada, um dia, num desses raros dias de folga talvez. Andreas, ele, o grego que em sua terra natal trabalhava numa televisão estatal, ele que tinha vinte e sete anos agora, mas que anos antes, antes de cruzar o mundo e vir parar naquela cafeteria da estação de ferries, ele havia filmado, havia reportado, havia escrito suas histórias imagéticas nas telas dos gregos, dos gregos que agora eram pobres, mas Andreas, ele não ligava, ele dizia, ele costumava contar que para ele tanto fez, recebeu seus salários até o final, até a televisão fechar e então ganhou seu passe para fora do país, ele era europeu, mas era um europeu a margem, um europeu que sabia cantar o hino da revolução, um grego com nome comum, um grego perdido que agora só sabia olhar para o chaveiro e tinha algo nele que o atraia, mas o que? O que ele procurava naquele pedaço de nada, naquele pedaço de acrílico pendurado numa corrente de metal, naquele pedaço que quase não dizia nada? As vezes, mas só as vezes, ele lembrava de seu país, ele só olhava e quando se sentia perdido, quando sentia a multidão desaparecer no corredor envidraçado, cantava silenciosamente a música da revolução dentro da cabeça, não era a imagem da Grécia que aparecia em sua mente, ele via o signo perambulando no corredor, preso a bolsa da asiática de olhos vermelhos, ele via aquilo e só conseguia lembrar o barco e com o barco ele seguia, quase que dentro de uma ilusão, dentro de um espectro amarelado, quase desbotado, ele seguia nessa onda súbita, nessa onda que o impedia de passar o café, de esquentar a água para o chá de gengibre com limão, de tirar os biscoitos e os bolinhos do forno de metal, ele esquecia, ele corria em pensamento para a beira do mar, do Mediterrâneo talvez, mas ele dizia, ele pensava, poderia ser qualquer um dos três mares, poderia ser até mesmo a borda do mar Jônico, ou seria nas margens do Egeu à leste? Ele quase não fala, ele quase não sabe de nada. O chaveiro o fazia voltar para casa, aqueles três anos, ou seriam quatro, perdido dentro daquela cafeteria, olhando os outros andando, indo e vindo do mar, Andreas não contava que seria tão solitário, não contava que estaria ali, perdido e olhando todos, incomunicável, ele apenas acendia um cigarro do lado de fora da estação, não vestia jaqueta, para que proteção se o frio já não incomodava, para quem já havia visto menos trinta, menos cinco é quase nada. Quando passava em frente à estação, antes de entrar no trabalho, ele memorizava pouco, memorizava a grande torre, lá de cima dava para ver o mar e até a ilha, dava para ver a cidade e as montanhas nevadas, mas eles cobravam muito caro pela subida e então ele apenas imaginava, mas quando fechava os olhos não via o mundo, não via o oceano, via apenas a pequena peça de acrílico, via apenas o artefato que se perdia diariamente no corredor. Para que água se ele tem café de graça? Pra que o sol se ele tem a chuva fina e constante, para que o céu claro se ele tem as nuvens, se ele as tem como cobertura. Para que o sol quente se ele tem o vento que mostra, de uma forma dolorida e direta, que se está vivo? Em seu horário de descanso, em seus vinte minutos de intervalo, ele andava até a beira do mar, mas pelo lado de fora da estação, lá na beira acendia o cigarro e apenas olhava, ele não cobrava nada, não tirava fotografias, ele não esperava, e mesmo assim via cenas simples, via os navios de carga, via os pássaros migrando, via a neve fina que caia ao longe, ela estava por chegar, Andreas queria tanto mais, as vezes ele desejava filmar novamente, desejava dirigir seus recortes de significado, mas o que na verdade importava se ele só conseguia pensar no chaveiro. Vi as pessoas saindo por detrás da estação e entrando no solo, desaparecendo com seus containers cheios de coisas necessárias, coisas que alguém ia usar um dia, coisas que para ele, não podiam fazer sentido. Andreas se importava apenas com seu entorpecimento, não ligava para roupas, queria entretenimento e não um tênis novo que não entrasse água, queria um maço de cigarros, queria um joint, pouco importava se a comida seria boa, ele até jogava algumas roupas fora de vez em quando, tinha uma mochila em casa e uma sacola no armário da cafeteria com o uniforme preto e isso era tudo, de noite ele procurava alguém para companhia, mas era tudo tão temporário, ele tinha uma família a cada dia, “eles são minha família”, dizia o pobre grego que tinha um relógio velho, um passaporte sujo e uma maço de Pall Mall no bolso esquerdo, um dollar em vinte e cinco centavos no bolsinho de moedas da calça, e isso era tudo. “Desse jeito, desse jeito você vai cair meu parceiro, você vai cair forte”, dizia Dimitri para Andreas. Ele apagava o cigarro na sola do tênis, colocava de volta no maço e quando seus olhos tocaram a paisagem de trás, a cidade que estava no todo, que estava entre as montanhas com o mar aos pés, quando ele viu novamente aquela cena em movimento percebeu que uma mulher o observa de longe, quase como ele fazia com o chaveiro, parecia o mesmo olhar, a mesma afeição, e ele andou até ela naquele dia, andou e resolveu perguntar algo, nem que fosse algo estranho, algo perdido, algo que não fizesse muito sentido, mas ela correu antes que ele pudesse se aproximar. “É isso que acontece sempre, todo dia é a mesma história”, dizia Dimitri para Andreas. “Killing time, killing time, I don’t mind, I never do”, dizia Andreas de volta. Voltar para o trabalho de novo e de novo. Ele correu porque poderia estar atrasado, os pés doíam naqueles tênis de sola reta, naqueles tênis de verão que custavam menos de vinte pratas, “todo dia é a mesma história, todo dia”, pensava o grego enquanto entrava na cafeteria e até a hora da saída ele não pensou em mais nada naquele dia, simplesmente a paranoia fugia e não era a primeira vez que isso acontecia, costumava acontecer sempre, especialmente quanto ele olhava no relógio e descobria que faltavam apenas duas horas, talvez duas horas e meia para deixar aquela prisão com cheiro de pó preto e então mais uma vez estaria perdido na rua, estaria perdido no ponto de ônibus pensando no que fazer, escolhendo os telefones para ligar, escolhendo a possível noite que poderia acontecer. Quando enfim deixou o trabalho, Andreas andou duas quadras e ligou para Vlad, Vlad que já tinha visto o norte, já tinha visto os quarenta graus negativos, Vlad, um tcheco de vinte e sete anos, um tcheco estranho com os dentes amarelos, barbudo e com seu boné verde de sempre, com seu boné feito a base de erva, feito com fibras naturais e comprado numa loja ali mesmo, nas redondezas, Vlad não atendeu na primeira vez e Andreas esperou mais um pouco antes de começar a subir a rua e desistir da noite, talvez seria melhor ir para casa, olhar o tempo, ver os vizinhos nadando na piscina aquecida do lado de fora, “eles são loucos”, mas isso parecia uma história de um amigo, isso parecia que não era dele, parecia ser outro ali e não ele, ele parecia tão distante, só hoje ele queria estar a beira do Egeu novamente, ele queria imaginar os barcos troianos se aproximando, ele queria ver o templo e os deuses antigos nos quais ele não acreditava mais, ele queria ouvir seu velho idioma que tinha mudado muito em dois mil anos, ele parecia tão longe e por um segundo esqueceu onde estava, esqueceu que aquela era outra cidade, esqueceu que tinha acabado de sair do trabalho, aquele dia poderia ter acontecido a meses atrás, poderia ter sido ontem, poderia ser um amanhã que ele ainda não tinha visto mas sabia exatamente como seria, ele estava tão longe e viu os barcos antigos, viu o mundo sendo descoberto, viu uma guerra sem motivo, viu o dinheiro indo pelo ralo, viu o dinheiro sendo queimado e a fumaça entrando nos pulmões, Andreas pensou em ir para casa, mas só pensou porque Dimitri, sim o grande Dimitri, ele pegou o telefone e ligou mais uma vez para Vlad, ele estava lá desta vez, estava esperando do outro lado e o primeiro toque nem chegou a ser finalizado, a voz com sotaque, o sotaque surgiu e os dois começaram a conversar, começaram a dizer que nada era tão esperado como aquilo, Vlad tinha um convite e Andreas pensava em não aceitar, mas ele não ligava, ele nunca fazia. O sol nem tinha aparecido naquele dia e a noite estava densa. Os dois combinaram em frente a uma boate que estaria fechada, uma que fica em frente ao cinema, o tcheco estava comprando alguns tickets para assistir mais tarde e tinha uma garrafa de vodka dentro da jaqueta. “Lá tem três garotas, é um apartamento, um desses nos últimos andares, elas tem dinheiro, elas só querem que a gente leve a bebida e uma ervinha se você tiver, porque eu to raso, eu quase não sei de nada”, disse a voz corpulenta de Vlad. “Vou gastar meu tempo, vou gastar meu tempo olhando o fogo e é isso, quem sabe role um pipe, role um desses de vidro que junta o óleo num orifício lateral e da pra aproveitar até o final, eu poderia gastar um ano nisso, ninguém sabe, ninguém pode dizer que não, sou apenas eu andando com esses malditos tênis que me doem até a morte, mas eu vou chegar, eu vou alcançar esse lugar, vou transbordar novamente, transbordar no meio de gente desconhecida, na verdade tem o Vlad, mas ele vai ao cinema, ele não estará lá no fim, quando as coisas estiveram escuras, em meia luz talvez, e eu vou andar até a varanda, um ou outro vai me pedir um cigarro e eu vou negar na primeira tentativa, quem sabe na segunda eu de algum, eu acenda e gaste minha noite olhando as palavras que se formam com as luzes, sabia que elas falam comigo, sabia que elas tem uma cor diferente de noite? Eu queria ir antes, mas agora eu não quero mais, mas Dimitri quer, Dimitri que comeu no restaurante Adonis, aquele restaurante grego que fica perto dos Sexyshops na Main Ave, lá mesmo, na rua da ponte, uma portinha com inscrições em grego e com duas lojas de brinquedinhos, revistinhas e videozinhos de sacanagem dos dois lados, as vitrines são tão decoradas que da até medo de transar, muito couro e o restaurante Adonis no meio, sempre tem um carro da polícia parado na frente”, pensou o grego confuso. Foi ali que Dimitri viu pela primeira vez aquele garota, uma outra, uma que não tinha bolsa, uma que não tinha chaveiro, uma que não se vestia combinando nem usava lentes de contato, uma bem simples, que as vezes estava de boné, moletom cinza e uma calça jeans colada, tênis brancos, ele tinha visto ela no Adonis e depois disso nunca mais. O apartamento, aquele que Vlad o convidava para ir, era perto da boate, uma quadra do restaurante Adonis e dezessete da cafeteria. Mas ele quase não fala, ele quase não sabe de nada. Andreas voltou do limbo com Vlad reclamando no telefone, dizendo que se ele não quisesse que não fosse, que fosse na verdade, mas que fosse pra casa dormir, talvez tomar um chazinho para melhorar a garganta, colocar os pés na água quente, assistir um filminho, comer umas torradas secas sem manteiga, que importa? O que importa é o desejo. Não há razão para isso, é simples de descobrir, da pra desvendar se você quiser: dentro é azul e por fora é vermelho; blue is in and red is out. Ele tinha que seguir e decidiu seguir Vlad, mesmo que o tcheco não ficasse até a festa acabar, no fim ele sabia que seria apenas ele e a caminhada de algumas quadras até sua casa provisória, dinheiro ele não tinha, saudade tinha, mas era bem pouco, disposição talvez não fosse a palavra, mas algo dizia, talvez fosse Dimitri, ele dizia que nada haveria lá no apartamento, nada mesmo, e Vlad parecia não querer, mesmo o convidando, mas o nada o chamava, o nada chamava Andreas, era como aquela mulher no porto na hora do intervalo, ela parecia chamá-lo mesmo fugindo dele, ela parecia esperá-lo, mesmo sem demonstrar nenhuma expectativa. Dimitri andou até a boate e esperou, por alguns minutos ele ficou ali parado, tinha um pacote de salgadinho no bolso e abriu, ficou ali comendo sem fazer barulho enquanto esperava. Ele olhava a cena que se desenrolava na rua, pouca gente andando, se esquivando da chuva rala que começara a cair, embaixo da marquise de um cinema, dormiam alguns mendigos, um deles, um de barba longa, parecia jovem, ele tinha alguns brincos e olhava a rua também, ao lado, um carrinho de supermercado com muita tralha. Dentro da jaqueta do maltrapilho, uma velha jaqueta a prova de água, estava um pequeno cão, ele tinha apenas a cabeça para fora e o restante do corpo estava dentro da roupa do morador de rua. O cão estava molhado, mas o mendigo não fedia tanto quanto se podia esperar. Antes que Andreas desviasse o olhar do mendigo, veio em sua direção um casal montado em bicicletas, eles se aproximaram e pediram licença, mas Andreas não entendia porque estava distraído ouvindo uma música alta nos fones de ouvido e comendo seu salgadinho e não percebia que estava encostado no estacionamento das bicicletas, os dois, a mulher com uma toca que lembrava um guaxinim e o homem com um boné virado para trás e a barba muito longa, mas os dois eram jovens, não parecia ter mais de trinta anos, pediram licença, passaram o cadeado nas bicicletas e saíram, atravessaram a rua e entraram num restaurante indiano, os dois deviam ser vegetarianos, tinham um ar de pessoas distintas, ecológicas, tinham um ar de formalidade muito direto, mesmo assim pareciam simples ciclistas que costumavam pedalar no parque ou na rodovia de uma cidade para outra, eram jovens e pareciam não seguros de si, um andando do lado do outro, ele tentou pegar na mão dela ao atravessar a rua, mas ela não percebeu e sem querer fugiu da dele, quando voltou, quando percebeu que seu barbudo, com cara de soldado da guerra civil americana, tinha tentando segurá-la, já era tarde demais, ele estava dois passos à frente e quando ela se aproximou e tentou segurar a mão dele, ele fugiu de propósito, então ela correu e pulou em suas costas e riu alto, os dois apenas brincavam, dois segundos depois sumiram dentro do restaurante. Andreas sentia o vento e um pouco da chuva rala e não sabia o que fazer. Antes que ele pensasse mais uma vez em desistir e ir para casa o celular tocou novamente, era Vlad, a tela dizia isso, ele atendeu, “tá em frente a boate, a boate com o grande letreiro apagado? Então anda até a esquina, na rua “N” você desce à esquerda, eu estou na esquina de baixo, perto de um paredão branco, você vai ver, é uma construção”, e Andreas desceu contrariado, mas na esquina Dimitri viu Vlad e desceu convicto, andou uma quadra conseguindo, de maneira incrível, não pensar em nada. Era sim um som grave, um som de cordas grossas que tocavam lá dentro, mas isso não significa pensamento é claro. Encontrou Vlad e com ele vinha um casal, um casal apaixonado, uma linda brasileira, um amante latino e o tcheco com aquela jaqueta preta gigante e uma regata branca por baixo. Luzes verdes e vermelhas, postes verdes, prédios que eram gigantes blocos de vidro, janelas gigantes, metade delas iluminada, e Dimitri concordava, ele pensava nas mulheres de cinquenta anos, ele lembrava delas como que num sonho e logo em seguida, na porta de entrada do prédio certo, duas quadras depois da esquina onde o grego tinha encontrado o trio, ali em frente ao prédio eles precisaram interfonar algumas vezes, a portão continuava não abrindo e eles pensaram que pudesse haver algum problema, mas não havia nada, em segundos ela abriu e dentro do elevador eles eram oito, quase o número máximo, uns desceram no quinto andar, outros estava indo para o vinte e três, mas a festa era no oito e Dimitri desceu no fluxo, com os outros. Na porta havia uma placa escrita com lápis em papel dizendo justamente que era ali, eles tinham chegado e não havia duvida, Dimitri foi o ultimo a entrar, o casal sentou-se num dos sofás, haviam tantos, havia tanta gente, era uma mistura de pelo menos uns quatro idiomas no ar, mal falados, mas havia algo de muito estranho acontecendo com pelo menos metade daquela gente, eles pareciam eufóricos, bebendo e conversando e Dimitri sentiu a necessidade de fumar, ele mal havia entrado e já estava enjoado, estava minimamente enjoado mas quando viu a varanda, uma saída de ar que dava para a cidade no oitavo andar, era o suficiente para ele querer ir la fora e ficar sozinho mais um pouco, isso talvez fosse repulsão, talvez fosse algum distúrbio, um medo de pessoas, um pânico, ele estava com frio e talvez estivesse com pânico, mas a varanda era uma saída fácil e quando abriu a porta de vidro viu que haviam dois casais lá fora, eles apenas conversavam e Dimitri tomou um dos cantos livres, um que tinha uma vista interessante, dava para ver o letreiro da boate, que agora já estava aceso, dava para ver que o volume de carros começavam a aumentar, duas viaturas policiais já estavam por ali fechando uma das ruas de acesso, uma ambulância já achava seu lugar ali em cima da calçada, o posto estava sendo montado, em pouco tempo somente pedestres na rua principal, era noite de festa, era noite da fantasia, era noite do desejo e os casais estavam todos com um ar similar, um ar que dava para entender, não precisava falar muito. Dimitri acendeu o cigarro, mas na segunda vez que o levou para fora da boca o vento acertou seus dedos e o fez perder. Ouviu uma risada feminina e percebeu que já não estava mais sozinho, só ele e os dois casais de swing, havia outra pessoa, era ela, Gabi, uma das muitas que haviam passado despercebidas por ele do trajeto da porta de entrada para a varanda, Gabi era do Brasil e obviamente cabe uma descrição rápida da moça: cabelos longos, castanhos e claros, a pele com o bronze no ponto, mas tinha uma leve barriguinha, mas isso não importava, ela estava no momento, ela e seus vinte e poucos aninhos, recém formada na universidade, atrás de um sonho estrangeiro, ela estava ali rindo do azar, rindo do pobre grego e seus dentes levemente amarelados, ele perguntou, em inglês, do que ela ria e ela respondeu que era óbvio mas que se ele quisesse, ela tinha mais, ela tinha e podia arrumar um sem problemas, mas ele sacou outro do bolso e os dois riram juntos desta vez, Gabi, era ela e só agora Dimitri ou Andreas, só agora ele conseguia fazer a ligação, era o Adonis, era a garota do Adonis, aquela que comia lá de vez em quando, era a bunda que ele vira saindo naquele dia, era aquela que de vez em quando o assombrava, o assaltava de surpresa durante aquelas pequenas sonecas dentro do ônibus, aquelas em que se tem pequenos sonhos, pequenas alucinações, tão rápidas, algumas com menos de um segundo, mas que são intensas, aquelas que quase se pode pegar, ele lembrou da bunda, lembrou do rosto, dos cabelos, parecia vê-la com a mesma roupa daquele dia, e ela estava realmente de moletom novamente, mas era outro, diferente daquele dia, mas ele a reconhecia, ele conseguia ver que era ela, a garota dos pequenos flashes e ele gritou dentro de si que o mundo era ridículo, era um mentira, era uma coincidência, era uma coisa que não era nada, porém, este mesmo estado de euforia o impediu de contar a ela, ele nada disse, entrou em uma carapuça e para ele, aquela era a primeira vez, era como se tivesse visto ela agora e nunca antes, não saindo do restaurante grego, grego assim como ele, ela saindo com seu moletom, com sua calça de ginástica, com seus tênis brancos, com aquele traseiro que não era gigante mas era grande, era coisa de se imaginar dentro, nadando, se perdendo, enfim, Andreas agora era Andreas, sério como uma pedra, mas com leves sorrisos, todos pela metade. No fim da risada Gabi se apresentou e ele fez o mesmo. Ela ofereceu bebida e ele aceitou, ele contou sobre a sua tara por mulheres de cinquenta anos e ela riu de novo, ela disse que não sofria das mesmas coisas, mas que as vezes via certas possibilidades muitos estranhas também. “Sexo é uma coisa que a gente não pode ficar regulando, é estranho dizer, mas é um campo meio livre, cada um dentro da sua liberdade, porque consciência, a minha não dói ainda, sei lá, como que funciona pra vocês?”, soltou a garota confusa, ela tinha uma tatuagem no pescoço, parecia uma flor, mas olhando melhor, dava para perceber que era um brasão, um escudo com uma palavra perdida no meio, Andreas não entendia, mas disse que para ele essa história de sexo era para se falar menos e fazer mais. “Perde-se muito tempo falando, tinham é que fazer mais”, repetia ele. Os dois riram novamente e ele disse que conhecia muitas mulheres, na verdade mulheres de quase todos os continentes, ele sabia praticamente como funcionava o esquema da maioria delas, quais os caminhos a serem percorridos, ele falou das europeias, “essa é minha especialidade, eu conheço algumas de lá, mas não sei, o que eu ouço das brasileiras é algo intrigante, conheço algumas que temem vocês, eu sempre digo que elas não precisam disso, mesmo assim elas tem uma certa desconfiança, conheci duas mexicanas que tinham pavor, nem gostavam de sair com brasileiras porque tinham medo, se achavam menos, mas eu me pergunto porque, qual é o lance de vocês?”, soltou Andreas, ele tinha segundas intenções, ele sabia que essa era uma quente, uma que teria a resposta reveladora, nem que ela não respondesse nada. “A sei lá, que papo é esse? Isso não se pergunta, vai, bebe ai, mata esse que eu vou ali buscar mais”, e Gabi saiu sem olhar, mas Andreas sabia que ela estava fingindo e quando olhou novamente para a rua principal, agora quinze minutos depois ela parecia começar a encher e ele soltou um sorriso completo, quase fez barulho quando lembrou das últimas palavras da garota, mas mal terminou a risada, sentiu um forte aperto por trás, era um abraço desses que pegam o sujeito pela barriga e levantam para cima, e ali naquele oitavo andar, perto do parapeito, aquilo parecia o fim, Andreas achou que ia cair e quase se sentiu lá embaixo, com a cara esmagada pelo impacto com aquela rua de ladrilhos perfeitos, quadrados exatos feitos de pedra, mas quando voltou para o oitavo andar, quando estava ali novamente (uma coisa que ele ainda não tinha entendido), voltando viu o maldito que fizera aquilo, era Mitt, o cara do apito no pescoço, um apito de metal desses de chamar pato, Mitt era um velho conhecido, eles tinham se visto pela primeira vez uns meses atrás, em outra festa, numa ilegal, os dois se abraçaram e Andreas já estava recuperado do susto e nem reclamou como tinha pensando num primeiro momento, Mitt tinha cabelo louro até os ombros, estavam molhados assim como a jaqueta dele, os dois começaram a conversar em um idioma que os dois casais acharam muito estranho, eles até pararam de conversar entre si e por uns segundos olharam de canto de olho os dois estranhos falando numa idioma no qual grande parte dos fonemas se formava na parte de trás da boca e não pela ponta da língua, o que é necessário na maioria das línguas normais; na que eles falavam, a grande maioria dos fonemas começava e acabava no fundo da boca, usando somente a parte de trás da língua e a garganta. Os dois falavam do dia, conversavam sobre o terremoto, sobre o tornado dos dias anteriores, falavam sobre as noticias da televisão, falavam como haviam evoluído um pouco no francês, os dois relembravam o dia em que se conheceram naquele galpão perdido no passado, como havia sido estranho aquele dia, talvez a mesma estranheza que os dois causavam nos swinguers ali na varanda; Dimitri disse que estava surpreso com ele por ali e Mitt explicou, ele disse que uma semana antes tinha conhecido umas garotas num bar perto da ponte e com uma delas ele tinha até trocado o número de telefone, então “na tarde de hoje”, ele disse, “eu estava trabalhando (Mitt entrega jornais na estação perto do grande relógio de gás), e recebi uma mensagem, era um convite e eu aceitei e aqui estou agora, bebendo, conversando com alguns desconhecidos”, finalizou o rapaz. Mitt também estava surpreso de encontrar Dimitri ali, a conversa começou a aquecer e os dois falavam mais alto e sem perceber, afugentando de vez os dois casais que foram procurar um quarto com mais privacidade, antes da porta de vidro se fechar, Gabi saiu e chegou para perto deles e agora ela estava com dois copos. Ela viu que os dois conversavam e achava que aquela era a primeira vez deles juntos; por um instante ela achou que pudesse estar enganada porque a conversa entre eles parecia ter certos traços de intimidade, uma intimidade que não era profunda, mas era incomum para dois completos desconhecidos, mesmo assim ela preferiu não perguntar, não entendia cem por cento do que eles falavam, talvez setenta ou um pouco mais. Ela ficou calada ao lado de Dimitri admirando, o que ele tinha de tão sedutor? Ele parecia um mistério, um vazio misterioso e as mulheres sabem disso, elas são atraídas por esse vazio, por esse mistério que fica nos olhos, elas enxergam isso e não demora mais que dois segundos para entenderem, nisso, pelo menos nisso, elas são ligeiras, são putas assassinas como disse o velho poeta chileno. Mitt não tinha lido sobre isso, mas ele sabia, ele em seus momentos solitários nas florestas e a beira dos lagos na Austrália, ele havia entendido esse lado feminino, quando tirava o tempo para pensar, era assim com tudo, ele acabava entendendo de vez. Ali na varanda, naquela noite, ele começou a se sentir meio de lado, parecia que Gabi olhava demais para Dimitri, mas ela tinha chegado com Mitt, ela tinha convidado Mitt, talvez fosse uma brincadeira da garota, mas ele estava ligeiramente preocupado, ele estava fora de casa há tanto tempo que dava pra dizer que era nômade, morava em um canto de cada vez, mas já havia passado em vários, em muitos lugares, comido e se acostumado a comer. Ele olhou a rua principal, assim como Dimitri antes dele, Mitt se admirava com a quantidade de gente que começava a se juntar lá, todos vestidos com roupas estranhas, parecia que tinham voltado a serem crianças, eles se vestiam como crianças, roupas coloridas, gravatas, frangos na cabeça, tênis com luzes, vestidos de banana, de pirata, uma mulher de odalisca, outra de coelhinha, uma de roupão, outra só de biquíni, uma de barril, boas crianças numa cidade bagunçada, todas reconectadas, era só uma estação feita para elas, para elas correrem com sua educação doente, Mitt, quis ir até lá, o que ele poderia fazer? Era uma pergunta que somente a tatuagem de Gabi podia responder, Mitt viu uma seta apontando para a rua, era uma seta brilhante na tatuagem de Gabi, uma que apontava para fora e ele pensou em seguir, em ir para a rua e quem sabe lá encontrar, ele também procurava alguma coisa, foi assim que tinha conhecido Dimitri, os dois pareciam sempre estar procurando, era o fogo que Gabi queria, era o fogo que ela procurava nos olhos de cada um dos homens que haviam passado em sua frente desde sempre. Dimitri continuava a falar e lembrava das mulheres de cinquenta anos. Ele falava com a garota enquanto Mitt apenas olhava.“Essas cidade é um truque completo Gabi, ou seria Mariana o seu nome, pois então, essa cidade é um truque, ela me acorda de manhã com sol e quando eu saio para a rua eu encontro chuva, eu esqueci meu guarda-chuva na casa de um amigo, desde então eu fico ai andando e me molhando, Gabi, eu queria te dizer, você é sempre assim, deste jeito, simpática, você sempre divide sua bebida com desconhecidos, você sempre para de ouvir a musica, sério, de onde você é mesmo, onde a sua vovozinha mora mesmo? Você tinha que me contar. Você sempre conversa com estranhos assim, você me seduz Gabizinha, este teu jeito fugitiva, esse teu jeito, essa tua mania de mostrar que sempre ta pronta pra dar um soco e sair correndo, você não me engana, porque Gabizinha, eu sou um estranho e nojento, eu escrevo errado, eu falo errado, porque você não da atenção pro Mitt, olha, ele ta ali no parapeito, ele quase me jogou varanda abaixo agora pouco, eu quase morri de susto, mas ele estava no comando, ele estava segurando, porque você não da atenção pra ele, ele é seu amigo de uns dias que eu sei, ele me disse como vocês se conheceram, ele afirmou que estava começando a se apaixonar por você, ele estava a ponto de te pedir um beijo e ele, talvez você não saiba, ele e eu… é isso mesmo, somos amigos; nos conhecemos num barracão, numa festa estranha, tomamos as pílulas da madrugada juntos, uma à meia noite e a segunda as três da manhã, ele queria antes mas eu ficava dizendo, espera cara, só mais dez minutos, espera cara, mais dez minutinhos, olha aqui no meu relógio, ele sempre ta no controle mas as vezes se descontrola, ele é um cara bom, é o cara ideal, ainda mais assim para você. Eu? Eu gosto das velhas, mas ele, Mitt, Mitt é meu amigo agora, posso dizer que ele é minha família as vezes, ele e eu somos parceiros, já voltamos juntos caminhando, voltando da festa no galpão, dois quilômetros andando, pedimos papel de enrolar para dois mendigos, Mitt, ele toma cogumelos as vezes, ele sempre foi hardcore, ele gosta do perigo, mas para ele, ele e seu apito de metal preso no pescoço, para ele, nada há para se temer, ele é um lifesaver, ele sabe o caminho de volta sem mapa, sem ajuda de ônibus, trens ou barcos, ele atravessa por conta própria, ele vai e volta para o outro lado, ele é pirado na verdade, mas eu já vou te dizendo, aquele dia, lá pelas tantas da madrugada ele me disse para parar, disse ‘cara o que você tá fazendo, a gente tem que se cuidar, olha, a gente não pode passar dos limites’, imagine garota, esse cara doidão, esse loiro cabeludo e descontrolado ficou serio, mas em seguida ele disse ‘cara, o que eu tava dizendo, o que eu disse pra você, quem sou eu? Me fala, quem? Eu sou o último que pode pedir para você tomar cuidado, eu não posso pedir para você voltar, eu não posso chegar assim no meio da noite, no meio desta estrada de volta para casa, bem aqui de baixo desta ponte’, porque eu e Mitt estávamos mesmo embaixo e uma ponte naquele momento, embaixo do viaduto que passa perto do estádio, sim ele continuava seu discurso e naquele momento garota, naquele momento minha querida Gabizinha, Mitt parecia gritar, ‘eu não posso dizer para você ir mais devagar Dimitri, você tem que ir com força, olhe ao redor, eu amo tudo isso, eu amo essas pessoas, essas que estavam com a gente lá dentro do galpão, eu amei aquela festa e eu amei mais ainda aquela garota, aquela fantasiada de nada, com uma camiseta de flores, com aquela saia preta curta, eu amei ela, nem que por uns instantes, você viu ela dançando na minha frente, viu ela rodando e olhando para mim com aqueles olhos de safada, ela me queria, dava para ver nos olhos dela, ela dançava e o Dj lá em cima também sabia, todos sabiam, ela me queria, ela foi até a caixa de som e começou a fazer um pole dance, ela estava pronta, os olhos diziam isso, ela dançava com sua amiga e ela achava que eu olhava para ela e mexia com ela, mas na verdade Dimitri, na verdade era você voltando do banheiro, nós tínhamos acabado de nos conhecer na rua de trás você lembra? Um pouco antes de entrar naquela festa ilegal, eu acenava para você naquele momento ali na pista, eu confesso, tinha gostado de você e estava disposto a dividir minhas pílulas da madrugada, então eu acenei, mas ela, a garota quente, ela achou que era para ela e então veio em minha direção, mas quando percebeu que era para você, que era para você Dimitri, quando ela viu que o aceno era para o meu amigo, meu amigo recém conhecido, ela ficou com vergonha, mas foi só num primeiro momento, dois segundos depois ela dançava ao redor de mim, com muito mais vontade do que antes e eu me soltei, eu dancei leve no ar’, disse Mitt para mim naquela mesma noite, enquanto voltávamos para casa. Entende o que eu digo Gabi, você e todas as mulheres deste mundo precisam de um cara como ele, como esse loiro cabeludo que não liga para nada, que simplesmente toma seu cogumelo e invade as festas ilegais, vai ao banheiro, faz suas vendas, faz alguns amigos, faz algumas supostas investidas sexuais, ele sabe o caminho de volta Gabi, ouça o que eu digo, agora eu, eu continuo gostando das mulheres de cinquenta anos, dessas que gostam de ir para o lado de fora da estação dos barcos, principalmente nos intervalos da tarde e param para fumar e olhar o mar, eu sou nostálgico minha querida recém amiga da America do Sul, eu sou difícil, eu gosto de tocar musica de madrugada, eu gosto das velhas”, e Gabi fingia não ouvir Dimitri e sua encenação a favor de Mitt que parecia estar em outro mundo, mesmo encostado ali do lado deles, Gabi, ela sabia que aquele era só um truque de Dimitri, podia ir embora e deixar o grego ali, mas ela estava intrigada com aquele papo, que tinha um ar de derrotista, mas que no fundo, ela sabia, dizia exatamente o contrário. Mitt se sentiu meio alheio e estava cansando de ficar ali, a festa tinha começado para Dimitri, mas para ele parecia terminar, talvez devesse ir, ele via a rua e a rua estava cheia, a rua completa, ela parecia chamá-lo, ele então colocou o apito na boca, fingiu um sopro, era apenas uma representação, era como se tivesse apitado, mas sem fazer barulho, era o sinal, era a mudança de humor, era a troca da água para o vinho, era o milagre induzido, ele estava saturado e as coisas começavam a fazer efeito. Mitt foi para fora, ele saiu, disse à Dimitri e Gabi, “vou ao banheiro”, e desceu as escadas, desceu os oito andares pelas escadas e teve o tempo certo para pensar qual direção tomar quando chegasse lá em baixo, Mitt estava disposto, todo aquele súbito cansaço que parecia ter tomado conta dele na varanda, havia sumido completamente, era ele de novo, ele e o mundo, era dia de mudar alguma coisa, disso ele sabia, Mitt colocou mais uma vez o apito de metal na boca, o apito que na adolescência ele tinha usado para chamar os pássaros para morte, ele o colocou na boca mais uma vez e desta apitou com força, era o renascer e então decidiu de vez, iria em direção a rua principal. Ele começou a andar e chegou rapidamente até lá, havia tanta gente, jovens com suas fantasias, jovens e suas ilusões que acabariam na manha seguinte, jovens que queriam o nada mais do que tudo. Mitt andou e alguns garotos soltavam fogos de artifício, dois jovens que mesmo com um frio absurdo e a chuva fina, andavam praticamente sem nada, apenas com pequenas bermudas coladas ao corpo, bermudas coloridas e laços na cabeça, os dois rapazes loiros soltavam os fogos de artifício e um explodiu no chão, deu errado, o estrondo foi ao lado de Mitt e ele não se assustou, o barulho parecia ensurdecedor, parecia ser dentro da cabeça dele, mas alguns passos adiante e aquilo já era passado, o som tinha passado e ele podia continuar andando como se nada tivesse acontecido. Havia tanta gente na rua principal e Mitt começou a sentir que ali talvez não fosse ainda o lugar, mas porque? Ele estava sempre procurando alguma coisa e naquela noite o apito ainda o guiava. Podia encontrar algo interessante num daqueles lugares onde os adolescentes brancos entravam e saiam com suas fantasias, podia achar conforto na solidão de algum daqueles lugares, poderia fazer como tantas vezes, ir para o meio da multidão e dançar sozinho por horas imaginando que estava novamente em casa, ou que estava novamente nas praias da de sua terra natal, estaria surfando novamente, estaria caçando patos, todo esse oceano de lembranças poderia inundar sua mente enquanto ele dançava dentro de algum daqueles clubes perdidos na rua principal, estavam todos perdidos e somente ele ainda tinha alguma chance de encontrar algo. O cheiro da fumaça que começava a se espalhar pela rua o incomodava e Mitt, em sua indecisão profunda, lembrou de Dimitri e Gabi na varanda, viu os dois como espectros de luz em sua frente e então retornou pela rua de trás, pela rua onde ficam os latões de lixo e os postes de luz, pensou em voltar para o apartamento, mas na rua de trás haviam uma porta vermelha, uma porta que não tinha iluminação externa nenhuma, mas que pelos vãos dava para perceber que algo acontecia lá dentro, ele alcançou o trinco, estava tudo muito escuro, girou e entrou e do outro lado da porta encontrou uma mulher muito gorda, talvez tivesse uns cinquenta anos ou pouco menos, ela pediu a identidade e disse que para entrar eram dez pratas, ele aceitou, porque não, poderia ser bem ruim ou poderia ser uma oportunidade, mais um achado, um desses que não se escolhe, não desses que você fica olhando na vitrine por trinta minutos até se decidir, foi um achado desses que pula no seu pescoço e não tem como fugir dele, Mitt entrou e a penumbra era a única coisa visível lá dentro, após um corredor de poucos passos ele saiu para o grande átrio daquele lugar escondido, haviam pelo menos duzentas pessoas ali dentro, todos de óculos escuros olhando para uma grande torre no centro, no topo havia um casal vestido com roupas metálicas, com roupas que imitavam um futurismo barato, uma analogia direta à filmes dos anos oitenta, os dois dançavam com arcos de luz, giravam em torno de uma mesa com dezenas de cabos conectados, os dois comandavam a multidão que não parava, eles pareciam não querer parar. Mitt estava começando a sentir o descontrole, estava começando a sair fora de si e então quando se deu conta, seus braços se moviam lentamente, eles se mexiam no ar, eles iam e voltavam em direção ao seu corpo e ele já estava no meio, no meio deles, e todos seguiam quase que os mesmos movimentos, eram apenas braços e pescoços, todos ritmados, era uma energia, era uma certa espécie de amor (porque não), eles rodavam, mas havia uma garota, uma com uma saia preta curta, ela era meio asiática e parecia estar com lentes de contato, ela olhava para Mitt, ela o olhava sem desviar o olhar e quando ele se deu conta, vinha em sua direção, trazia um copo com um líquido transparente, ela andou e andou sem desviar o olhar e quando chegou perto do cabeludo, quando estava quase encostando nele, deu um giro em volta de si mesma, tirou um lenço da bolsa e enrolou no pescoço do viajante, enroscou, mas Mitt não se deixou levar, ele saiu andando, mas a garota de saia curta o perseguiu e o segurou pelo braço, ela o olhava nos olhos e disse, “o que você faz aqui de novo, o que você faz aqui me observando de novo?”, e Mitt disse que ela só podia estar confundindo ele com outra pessoa, mas ela tinha certeza. “Você me olha todos os dias, você não sabe, mas eu percebo, você ainda está interessado em minha escultura de acrílico? É, aquela que eu transformei em chaveiro, você tinha uma obseção por ela, eu achava que eu passava por você e que você me olhava, mas não, você procura o chaveiro, o que ele significa para você?”, e Mitt disse mais uma vez que ela só podia estar confundindo ele com outra pessoa, que ele nunca tinha visto nada, disse que não sabia de chaveiro nenhum, o único objeto de que ele tinha alguma informação era o apito e mais nada, “chaveiro, que chaveiro?”, então Mitt entendeu que na verdade ele não estava mais ali, ele estava em outro lugar, talvez fosse o mesmo lugar onde Dimitri estivera, mas quem era Dimitri, onde ele estava agora? Quem era Mitt, onde ele estava agora? E Andreas, e Gabi e Mariana, e todos os outros, onde eles estavam agora? Era o apartamento, era o galpão ou simplesmente a porta escura da rua de trás? Eram a explosões na rua principal, era o rosto de Dimitri, esmagado nos ladrilhos perfeitos? A garota o empurrava para fora, ela o levava pelo braço e mostrava a pequena escultura e dizia, “não é isso, não era isso que você procurava?” e Mitt, mais confuso do que antes se soltou da garota de vez, ela tentou agarra-lo, ela tentou beijá-lo a força por três vezes, mas Mitt não queria a menina asiática, ele até quis Gabi por um instante, mas agora ele queria somente o nada (talvez conseguisse dormir), o efeito estava ficando nocivo. Quando conseguiu se livrar da garota e sua saia preta curta, Mitt ganhou a rua e finalmente encontrou seu telefone celular, estava perdido num dos bolsos. “Alô, Andreas? Cara você pode me buscar, estou aqui na rua de trás, vamos para casa, eu queria ir para casa tomar aquele chazinho e descansar, o que você acha?”. Andreas desceu as escadas, andou algumas quadras e encontrou Mitt vomitando na rua de trás, poucos metros da porta vermelha. Os dois seguiram o caminho de volta e Mitt gritava, Mitt pedia nas ruas para que Andreas nunca mais olhasse para o chaveiro. “Você precisa sair dessa paranoia, as horas vão continuar passando rápido, acredite em mim”, disse ele antes de apitar pela última vez naquela noite. Os dois pegaram um taxi e atravessaram a ponte para casa.